A memória do Marquês de Sá da Bandeira no espaço público
31 Jul 2020

A 31 de julho de 1884, foi inaugurado na praça D. Luís I, junto ao Cais do Sodré, o monumento ao Marquês de Sá da Bandeira (Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo, Santarém, 1795 – Lisboa, 1876).

Pouco passava das 6 da tarde, quando uma multidão se juntou para assistir ao desvendar da estátua que iria imortalizar o militar, o combatente pelo constitucionalismo e o estadista que aboliu a escravatura. Presentes, entre muitas figuras do governo e do município, estavam o casal real D. Luís e D. Maria Pia, os príncipes, o pai do rei, D. Fernando e a filha do homenageado.

Financiado por subscrição pública (entre os contributos contaram-se os de ex-escravos e da família real), o projeto foi ganho, após concurso internacional, pelo escultor italiano Giovanni Ciniselli (1832-1883), que em 1881 se deslocou a Lisboa para se inteirar do local onde o monumento seria erguido e da biografia do homenageado, fornecida pelo historiador Luz Soriano. 

Entretanto, e embora as várias estátuas que compunham o monumento estivessem fundidas, o seu autor morreu em maio de 1883, sem ter terminado a totalidade da obra. A Revista Occidente noticiou, logo após a inauguração do monumento, que se percebia “faltar o último toque do artista”, criticando a altura mal calculada para o local.

O caminho para a liberdade

O monumento é constituído por três partes: a base, formada por três degraus, o pedestal em pedra, da autoria de Germano José de Salles e a estátua principal. A ladear a base assentam quatro estátuas em bronze, uma na parte posterior que representa a História e dois leões de cada lado do pedestal, simbólicos representantes da força e da coragem que o homenageado sempre demonstrou enquanto militar e político.

Na parte frontal, uma mulher com uma criança ao colo, colocada estrategicamente para esconder os seios, representa todos os escravizados de África e, embora ainda agrilhoada, mostra uma corrente já quebrada, no tornozelo esquerdo. A mulher aponta à criança o nome do homem responsável pelo fim da escravatura e do tráfico negreiro no império português. A modelo que serviu como alegoria aos escravizados terá sido a cabo-verdiana Andresa do Nascimento ou Fernanda do Vale (pseudónimo literário), mais tarde conhecida na Lisboa boémia, dos salões, dos teatros e até das praças de touros, como Preta Fernanda (c.1859-c.1918).

Finalmente, a coroar o monumento, a figura do marquês de Sá da Bandeira, segurando um estandarte, com um pendão a dizer «Libertas», acompanhado por um génio que segura um archote, como se a luz que daí flui iluminasse o caminho para a liberdade. Realça-se o pormenor da manga vazia da casaca, pela amputação do seu braço direito, atingido por uma bala, no âmbito das lutas liberais, a 8 de setembro de 1832, como tenente-coronel do exército de D. Pedro, na defesa do Alto da Bandeira (Serra do Pilar, Vila Nova de Gaia), ponto estratégico para a tomada da cidade do Porto.

Um combatente pela liberdade e igualdade

O marquês de Sá da Bandeira foi um homem de ideais, um combatente permanente pela liberdade e pela igualdade. Nesse sentido, considerava que milhares de súbditos da coroa portuguesa – os escravizados – não gozavam das garantias que a carta constitucional lhes concedia.

Foi, por isso mesmo, um abolicionista convicto, mas também um incrementador colonial. Advogava a abolição total da escravatura, considerando que só o trabalho livre e a instrução eram os verdadeiros fatores de desenvolvimento dos territórios africanos. Como legislador, e enfrentando as autoridades e os colonos de África, aboliu gradualmente a escravatura e o tráfico negreiro, com vários decretos-lei entre 1836 e 1869.

Foi o próprio que escreveu o seu epitáfio: “(…) serviu o seu país, servindo as suas convicções, morre satisfeito. A pátria nada lhe deve”.